Posso Parar de Pagar o Financiamento Durante a Revisional?

Entrou com ação revisional e quer parar de pagar as parcelas? Veja os riscos, como funciona o depósito judicial do valor incontroverso e o que diz o STJ.
Pessoa analisando parcelas de financiamento com calculadora e documentos

Quem entra com ação revisional costuma perguntar: posso parar de pagar o financiamento durante a revisional? A resposta direta é não. A ação, por si só, não suspende as parcelas, não impede a negativação e não protege o veículo contra a busca e apreensão. Quem deixa de pagar porque entrou na Justiça continua em mora.

Existe, porém, um caminho legal para não pagar o que se considera abusivo sem cair em inadimplência: continuar pagando o valor incontroverso e, com autorização do juiz, depositar em juízo a diferença. Veja como isso funciona, os prazos envolvidos e o que o STJ decidiu sobre a mora de quem discute o contrato.

Entrar com ação revisional suspende as parcelas?

Não. O STJ fixou, no repetitivo REsp 1.061.530/RS (2ª Seção, 2008), a tese que virou a Súmula 380: “a simples propositura da ação de revisão de contrato não inibe a caracterização da mora do autor”. O processo não é uma pausa automática no contrato.

O Código de Processo Civil reforça a regra. O art. 330, §2º, exige que a inicial da revisional discrimine as cláusulas contestadas e quantifique o valor incontroverso, sob pena de inépcia. O §3º determina que esse valor “deverá continuar a ser pago no tempo e modo contratados”.

O que acontece se eu parar de pagar por conta própria

No financiamento de veículo com alienação fiduciária, as consequências são rápidas e previstas no Decreto-Lei 911/1969:

  1. Mora imediata. Pelo art. 2º, §2º, a mora decorre do simples vencimento da parcela, comprovada por carta registrada com aviso de recebimento, ainda que assinado por terceiro.
  2. Vencimento antecipado. O art. 2º, §3º, autoriza o banco a considerar vencidas todas as parcelas restantes, e não apenas as atrasadas.
  3. Busca e apreensão liminar. Pelo art. 3º, comprovada a mora, o juiz concede a liminar, inclusive em plantão judiciário.
  4. Cinco dias para pagar tudo. Executada a liminar, o devedor tem 5 dias para pagar a integralidade da dívida pelos valores apresentados pelo banco (art. 3º, §2º). Sem pagamento, a propriedade do veículo se consolida no credor (art. 3º, §1º).
  5. Negativação. Em paralelo, o nome pode ir aos cadastros de inadimplentes. O artigo sobre negativação durante a ação revisional detalha como impedi-la.

Por isso, a orientação de “parar de pagar para forçar o banco a negociar”, comum em assessorias de revisional sem advogado identificado, é o caminho mais rápido para perder o veículo. Quem já recebeu a liminar deve ler o artigo sobre busca e apreensão do carro.

Como pagar só o valor que considero correto: o depósito judicial

O caminho seguro é dividir a parcela em duas partes, com base em cálculo técnico:

1. Calcule o valor incontroverso

É a parcela recalculada sem os encargos que se pretende afastar (juros acima da taxa média de mercado, capitalização não pactuada, tarifas indevidas). O cálculo deve acompanhar a inicial. O artigo sobre como calcular juros abusivos explica os critérios.

2. Peça autorização para depositar em juízo

Na inicial, requer-se tutela de urgência (art. 300 do CPC) para depositar judicialmente o valor incontroverso das parcelas vincendas, com ordem para que o banco não negative nem ajuíze busca e apreensão enquanto o depósito estiver em dia. O STJ, no REsp 1.061.530/RS, registrou que “não há qualquer vedação legal à efetivação de depósitos parciais, segundo o que a parte entende devido”.

3. Mantenha os depósitos rigorosamente em dia

Depósito atrasado ou interrompido derruba a proteção. Guarde as guias: elas provam a boa-fé se o banco alegar inadimplência.

O detalhe que poucos explicam: quando a mora deixa de existir

Além da Súmula 380, o REsp 1.061.530/RS fixou uma distinção decisiva na “Orientação 2”: a abusividade nos encargos do período de normalidade (juros remuneratórios e capitalização) descaracteriza a mora; a abusividade apenas nos encargos da inadimplência (multa, juros de mora, comissão de permanência) não.

Na prática, se o juiz reconhecer que os juros eram abusivos desde o início, o consumidor que depositou o incontroverso não é considerado inadimplente. O acórdão aponta as consequências: a negativação se torna ilegal, o consumidor permanece na posse do veículo e o título não pode ser protestado.

E a consignação em pagamento?

A consignação cabe quando o banco se recusa a receber o pagamento ou quando “pender litígio sobre o objeto do pagamento” (art. 335 do Código Civil). Pelo art. 539, §1º, do CPC, o devedor deposita o valor em banco oficial e notifica o credor por carta com aviso de recebimento, que tem 10 dias para recusar; havendo recusa, a ação deve ser proposta em 1 mês. Parcelas seguintes podem ser depositadas no mesmo processo em até 5 dias do vencimento (art. 541).

A limitação: a consignação pressupõe depósito do valor efetivamente devido e não serve, isoladamente, para impor ao banco uma parcela menor. Na revisional, o instrumento usual é o depósito judicial autorizado pelo juiz.

O juiz negou o depósito ou a liminar. E agora?

A negativa não encerra o processo. A liminar costuma ser indeferida por falta de cálculo do incontroverso, fundamentação genérica ou ausência de prova da taxa média de mercado. É possível emendar a inicial com cálculo detalhado, interpor agravo de instrumento e, enquanto o recurso é analisado, continuar pagando integralmente ao banco, pedindo a devolução do excesso ao final. Veja também o artigo sobre a revisional de financiamento e seus requisitos.

Cada caso exige análise individual do contrato, do histórico de pagamentos e do estágio do processo. Este artigo tem caráter educativo e não substitui a orientação de um advogado.

Perguntas frequentes

Entrar com ação revisional suspende o pagamento das parcelas?

Não. Pela Súmula 380 do STJ, a simples propositura da ação não afasta a mora. O art. 330, §3º, do CPC exige que o valor incontroverso continue a ser pago no tempo e modo contratados.

Quanto tempo depois de parar de pagar o banco pode pedir a busca e apreensão?

Pelo Decreto-Lei 911/1969, a mora decorre do simples vencimento, comprovada por carta com aviso de recebimento, sem número mínimo de parcelas em atraso. Após a apreensão, há 5 dias para pagar a integralidade da dívida.

Depositar em juízo o valor incontroverso impede a busca e apreensão?

Depende de decisão judicial. O depósito autorizado e mantido em dia costuma embasar a ordem para o banco não apreender o bem. Se a sentença reconhecer juros abusivos no período de normalidade, a mora é descaracterizada (REsp 1.061.530/RS).

Posso usar a consignação em pagamento para pagar menos ao banco?

Não isoladamente. A consignação exige depósito do valor devido e recusa injustificada ou litígio sobre o pagamento (art. 335 do CC). Para discutir o valor da parcela, o instrumento adequado é a revisional com pedido de depósito judicial.

Se eu perder a ação, o que acontece com os valores depositados?

O banco os levanta como pagamento parcial, e o consumidor complementa a diferença com os encargos do contrato, pois a mora não terá sido afastada. Se a ação for procedente, os depósitos quitam as parcelas pelo valor recalculado.

Sobre o autor

Renan Palmeira da Nóbrega, OAB/PB 17.317. Advogado com atuação em direito bancário e do consumidor, com foco em revisão de contratos de financiamento e defesa em busca e apreensão. Palmeira Advogados, João Pessoa/PB.

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