Se você pediu ao banco para tirar a suspeita de fraude do seu Pix e recebeu uma negativa, a marcação no seu CPF não é definitiva só por causa dessa resposta. O Regulamento do Pix obriga o banco responsável a cancelar a marcação quando não houver elementos que justifiquem mantê-la, e a guardar registro dos motivos da decisão. Uma negativa genérica, sem fundamento, pode ser questionada na ouvidoria, no Banco Central e, se necessário, na Justiça.
O ponto que mais derruba esses casos é processar o banco errado. A seguir, explicamos como identificar a instituição responsável, que provas reunir e quais caminhos existem depois da negativa. Se você ainda não fez o pedido de cancelamento, comece pelo nosso guia como tirar o alerta de golpe do Pix.
O que a regra do Banco Central diz sobre a negativa
Desde a Resolução BCB nº 587, de 18/09/2026, o Regulamento do Pix (Resolução BCB nº 1/2020) estabelece que:
- Quem marcou é quem cancela. O responsável pela marcação é a instituição que aceitou a notificação de infração ou que criou a marcação transacional (art. 78-HB). Cabe a ela decidir sobre o cancelamento (art. 78-HC).
- Prazo de 7 dias. O banco responsável deve decidir pela manutenção ou pelo cancelamento em até sete dias, contados do recebimento do pedido (art. 78-HC, § 2º).
- Cancelamento obrigatório sem elementos. A marcação deve ser cancelada se, após a análise, não subsistirem elementos que justifiquem a suspeita (art. 78-HC, § 3º).
- Fundamentos registrados. O banco deve manter registro dos fundamentos usados para manter ou cancelar a marcação (art. 78-HC, § 4º).
- Duração. Sem cancelamento, a marcação permanece vinculada ao CPF ou CNPJ, e à chave, por cinco anos (art. 78-HD).
A obrigação de avisar o usuário sobre a marcação só passa a valer em 1º de fevereiro de 2027. Por isso, muita gente só descobre a restrição quando um Pix é recusado. Veja como saber se o seu Pix tem marcação de fraude.
Passo a passo depois da negativa
1. Exija a resposta por escrito e com motivo
Peça o número de protocolo, a data do pedido e a decisão por escrito, com a indicação de qual transação ou notificação originou a marcação. Se o banco não respondeu em sete dias, registre isso: o descumprimento do prazo também é argumento.
2. Confirme qual instituição fez a marcação
O banco que exibe o alerta nem sempre é o que marcou o seu CPF. A marcação costuma vir da instituição onde está a conta ou a chave envolvida na transação contestada. Se a sua chave está registrada em outro banco ou carteira digital, pergunte formalmente a cada instituição se ela é a responsável.
3. Reúna as provas da origem lícita
- comprovantes das transações questionadas e a origem dos valores (nota fiscal, contrato, conversa com o pagador);
- boletim de ocorrência, se você foi vítima de golpe ou teve dados usados por terceiros;
- relatórios do Registrato (chaves Pix e contas vinculadas ao CPF);
- prints das recusas de Pix e prova dos prejuízos (vendas perdidas, salário retido, contas atrasadas).
4. Acione a ouvidoria do banco responsável
A ouvidoria atende em última instância as demandas não solucionadas no SAC e deve responder em até dez dias úteis, prorrogáveis uma única vez, de forma justificada (Resolução CMN nº 4.860/2020, art. 6º, § 2º).
5. Registre reclamação no Banco Central e no consumidor.gov.br
O Banco Central não decide o caso individual nem retira a marcação, mas a reclamação é encaminhada à instituição e fica registrada para fins de supervisão. Veja o passo a passo em como reclamar no Bacen e no Procon.
Quando cabe ação judicial
Se a negativa persistir sem fundamento, pode ser proposta ação de obrigação de fazer para cancelar a marcação, com pedido de indenização quando houver prejuízo comprovado. A relação é de consumo: o banco responde pela falha na prestação do serviço (CDC, art. 14), e o juiz pode inverter o ônus da prova quando a alegação for verossímil (CDC, art. 6º, VIII). Isso é relevante porque os fundamentos da marcação ficam com o banco, não com você.
Quando a restrição impede o recebimento de salário, a atividade de um comércio ou o pagamento de contas essenciais, é possível pedir tutela de urgência, que exige probabilidade do direito e perigo de dano (CPC, art. 300). Causas de até 40 salários mínimos podem tramitar no Juizado Especial Cível; acima de 20 salários mínimos, a assistência de advogado é obrigatória (Lei nº 9.099/1995, arts. 3º, I, e 9º).
O erro que faz muitas ações serem rejeitadas
Há decisões recentes de Turmas Recursais do Tribunal de Justiça da Bahia que mantiveram a improcedência de pedidos de retirada do alerta porque a ação foi movida contra o banco que apenas exibia a mensagem, enquanto a chave estava registrada em outra instituição, que não participou do processo. Nesses casos, entendeu-se que o autor não provou que o réu era o responsável pela marcação (CPC, art. 373, I), e o dano moral também foi negado por falta de prova de repercussão concreta.
A lição prática: antes de processar, identifique o responsável (art. 78-HB) e documente o prejuízo. Cada caso depende das provas e do entendimento de cada tribunal, e não há garantia de resultado.
Erros comuns depois da negativa
- Abrir contas em outros bancos esperando escapar da marcação: ela está vinculada ao CPF, não à conta.
- Repetir o pedido sem documento novo: a análise tende a terminar no mesmo resultado.
- Movimentar valores de terceiros durante a análise, o que pode reforçar a suspeita.
- Esperar os cinco anos: enquanto isso, a restrição pode impedir Pix, abertura de conta e crédito.
Se a marcação veio de uma denúncia feita por quem lhe pagou, leia também minha chave Pix foi denunciada: o que fazer. Se a conta inteira foi travada, veja quanto tempo dura o bloqueio por suspeita de fraude.
Perguntas frequentes
O banco pode negar o cancelamento sem explicar o motivo?
O Regulamento do Pix exige que o banco registre os fundamentos da decisão (art. 78-HC, § 4º). Uma negativa sem motivo dificulta a sua defesa e pode ser questionada na ouvidoria, no Banco Central e, em juízo, com pedido de exibição desses fundamentos.
O Banco Central pode tirar a marcação do meu CPF?
Não diretamente. Pelo Regulamento, o cancelamento cabe à instituição responsável pela marcação. A reclamação no Banco Central serve para pressionar a instituição e registrar a falha.
Posso pedir indenização pela marcação indevida?
É possível quando houver falha do banco e prejuízo demonstrado. Há decisões que negam o dano moral quando não há prova de repercussão concreta, por isso documente cada recusa e cada perda.
Quanto tempo dura a suspeita de fraude se eu não fizer nada?
Cinco anos, contados do registro da marcação no sistema do Banco Central (art. 78-HD), salvo cancelamento antes disso.
Sobre o autor: Renan Palmeira da Nóbrega, advogado inscrito na OAB/PB sob o nº 17.317, atua em direito bancário, com foco em fraudes no Pix, marcação de suspeita de fraude e responsabilidade de instituições financeiras.
O banco negou o cancelamento da marcação no seu Pix? O escritório Palmeira Advogados faz uma avaliação gratuita do seu caso. Fale conosco pelo WhatsApp. Saiba mais sobre a nossa atuação em marcação de fraude no Pix.
Conteúdo de caráter informativo, em conformidade com o Provimento 205/2021 da OAB. Não substitui a análise individual do caso por um advogado.


















